sexta-feira, 29 de abril de 2011

HOMENAGEM A TODAS MÃES


CICATRIZES DE MÃE

Algumas crianças de nove anos a caminho de casa, no final de mais uma manhã de aulas, iam conversando sobre suas mães pelo caminho. Um deles porém virando-se para o Ricardo, disse-lhe, em tom de desprezo:
- “A tua mãe é feia. Aquela cicatriz horrível que tem na cara!”
Na verdade, a mãe do Ricardo, quando aparecia na escola, impressionava todas as crianças, o seu rosto, realmente, estava muito marcado por uma enorme cicatriz a todo o comprimento da cara no lado esquerdo. Ricardo, ao ouvir o que o colega disse sobre a sua mãe, desatou a correr, chegou a casa, passou diante da mãe e, sem a cumprimentar, deitou-se na cama, a chorar. A mãe, preocupada, entrou no quarto e sentou-se ao lado do filho.
- “Meu filho, porque não me deste um beijo quando chegas-te, como era costume? Estás zangado comigo?”
- “Vai-te embora, mãe, que és feia! Essa cara horrível, essas mãos horríveis ...”
- “Meu filho, meu filho! Tens razão – disse a mãe, magoada com o que ouviu, - eu sou feia e as minhas mãos são horríveis. Mas vou dizer-te porquê. Quando tu tinhas dois aninhos de idade, eu fui ajudar uma vizinha para ganhar o pão para nós. Alguém me foi dizer que a minha casa estava em chamas. Eu corri quanto pude. Os bombeiros já lá estavam apagando o fogo, mas não se atreviam a entrar. Eu ouvia-te a chorar lá dentro e rompi por entre as chamas, subi as escadas, que já ardiam, e fui direita ao berço onde te encontravas. Enrolei-te nos cobertores e saí o mais depressa que pude, Ao descer as escadas, uma trave ia cair sobre ti e eu defendi-te com as minhas costas, tendo-me um prego da trave, em brasa, rasgado a minha cara. Quando te entreguei na mão dos bombeiros, as minhas mãos estavam queimadas, os meu cabelos ardidos e a minha cara com esta enorme cicatriz. Meu filho, desculpa, nunca te quis dizer isto, mas não quero perder o teu amor. Foi para te salvar que fiquei no estado em que estou, que tenho as cicatrizes que tenho. Preferi a tua vida e prefiro mil vezes a tua vida do que a beleza da minha cara. Preferi e prefiro mil vezes usar esta peruca que esconde uma cabeça sem cabelo e cheia de feridas por causa do fogo que me queimou enquanto te sustinha nos meus braços, do que te ter perdido, meu querido filho.
Depois de lhe dar um beijo furtivo, retirou-se mas, mal tinha chegado à porta, o filho correu a abraçá-la e disse-lhe: - Mãezinha, desculpa! Eu gosto muito de ti!


Nesta história verídica, quero prestar homenagem às cicatrizes das nossas mães, da tua mãe em particular, cicatrizes no corpo e na alma, que lhes deixamos, pela entrega com que se deram a nós. De facto, quem pode descrever a sublime grandeza do amor de mãe? Nem o poeta com as marcas da sua fantasia; nem o pintor com a capacidade imaginativa das suas mãos; nem o cantor com as melodias mais formosas. Quem será o filho ingrato que se atreve a esquecer as lágrimas que sua mãe chorou, os sacrifícios que a sua mãe passou ou os conselhos que a sua mãe lhe deu?

Mãe! Expressão de sublimes sentimentos nas agruras da vida. Mãe! Manancial de virtudes no sacerdócio familiar. Mãe! Fonte de misericórdia de consolação e de afectos. Mãe! Sentinela, no campo de batalha; vigia, nos momentos de perigo; providência nos momentos de necessidade e conforto nas sombras da solidão. Sim, mãe! Ninguém te rivaliza em sacrifícios; ninguém supera o teu amor; ninguém te excede nas tribulações e ninguém te imita na grandeza das dores. Mãe! Palavra majestosa como a vastidão dos mares; meiga como o ciciar de uma brisa; bela como o surgir da aurora; forte como murmurar do trovão; mais perfumada que todos os perfumes; mais sonora que a mais bela melodia e mais fascinante que o brilho das estrelas ou a grandeza do Universo.


Na sua fragilidade materna, agiganta-se para defender o filho mesmo que tenha que passar pelo fogo sujeita a ficar sem a vida, ou marcada por milhões de cicatrizes, contando que salve a vida do seu rebento. Num meigo murmúrio de beijos e numa doce balada de enlevos acolhe o filho; intemerata, permanece diante dos perigos que o cercam; meiga nas enfermidades que o acabrunham; corajosa nos infortúnios que o perseguem; compadecente nos delitos que comete; espalhando alívio nas suas mágoas, alívio nas suas tristezas, ânimo nas suas lágrimas; coragem na sua resignação. E com que ternura desvendou os Mistérios ao filho, que levava no seu colo, quando foi à comunhão:
“Minha mãe, que era aquilo que deu o senhor abade, vestido de branco à grade?...”
“Fala baixinho, menino…estás na mesa do Senhor, Silêncio…reza…fervor…”
“Mas tu, ó mãe, diz-me o que era? Tão bonita parecias, quando alegre recebias aquela coisinha branca”.
“Filho, aquilo era Jesus! Quis ficar prisioneiro no alvo pão que abençoou…e tu cuidas que ele dorme?... Não, lindo infante, desperto vela a cada instante por todos, por mim e por ti e d`amor vive preso ali!...”
E agora pergunto eu:
Existe mais alguém,
Com valor superior,
Ao da tua própria mãe?
Nos sacrifícios e nos afectos,
Na entrega e no amor,
Digam lá o que disserem
Ninguém lhe é superior!
Tenham valor as pérolas
E tudo o que o mundo contém,
Mas há valor mais precioso
Que as cicatrizes da mãe?


FELIZ DIA DA MÃE!


Feliz Mês da Mãe!



Padre Frei José Dias de Lima OFM

Lançai a rede para a direita do barco e encontrareis


EVANGELHO Jo 21, 1-14

«Jesus aproximou-Se, tomou o pão e deu-lho,
fazendo o mesmo com o peixe»

As aparições do Senhor ressuscitado vêm frequentemente em ambiente de refeição, e esta é descrita com termos semelhantes aos que são usados para falar da celebração da Eucaristia. A celebração eucarística foi, desde o início, o lugar privilegiado onde os cristãos reconheceram o Senhor no seu Mistério Pascal. A pesca abundante, como outros factos semelhantes do Evangelho, evoca a abundância de vida de que o mistério da Páscoa de Jesus é fonte e origem.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, Jesus manifestou-Se novamente aos discípulos junto ao Mar de Tiberíades. Manifestou-Se deste modo: Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, e Natanael, que era de Caná da Galileia. Também estavam presentes os filhos de Zebedeu e mais dois discípulos de Jesus. Disse-lhes Simão Pedro: «Vou pescar». Eles responderam-lhe: «Nós vamos contigo». Saíram de casa e subiram para o barco, mas naquela noite não apanharam nada. Ao romper da manhã, Jesus apresentou-Se na margem, mas os discípulos não sabiam que era Ele. Disse-lhes então Jesus: «Rapazes, tendes alguma coisa para comer?» Eles responderam: «Não». Disse-lhes Jesus: «Lançai a rede para a direita do barco e encontrareis». Eles lançaram a rede e já mal a podiam arrastar por causa da abundância de peixes. Então o discípulo predilecto de Jesus disse a Pedro: «É o Senhor». Simão Pedro, quando ouviu dizer que era o Senhor, vestiu a túnica que tinha tirado e lançou-se ao mar. Os outros discípulos, que estavam distantes apenas uns duzentos côvados da margem, vieram no barco, puxando a rede com os peixes. Logo que saltaram em terra, viram brasas acesas com peixe em cima, e pão. Disse-lhes Jesus: «Trazei alguns dos peixes que apanhastes agora». Simão Pedro subiu ao barco e puxou a rede para terra, cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes. E, apesar de serem tantos, não se rompeu a rede. Disse-lhes Jesus: «Vinde comer». Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar: «Quem és Tu?»: bem sabiam que era o Senhor. Então Jesus aproximou-Se, tomou o pão e deu-lho, fazendo o mesmo com o peixe. Foi esta a terceira vez que Jesus Se manifestou aos discípulos, depois de ter ressuscitado dos mortos.

Palavra da salvação.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Assim está escrito que o Messias havia de sofrer

EVANGELHO Lc 24, 35-48

«Assim está escrito que o Messias havia de sofrer
e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia»

Tal como a primeira leitura, também esta insiste na unidade dos dois Testamentos, ambos testemunhas da mesma história da salvação. Para a primitiva comunidade cristã, vinda do povo judeu, esta descoberta era fundamental: o que antes de Cristo fora anunciado tinha agora n’Ele pleno cumprimento. O Novo Testamento, o tempo da plenitude, continua a ser agora testemunha desta Boa Nova entre os povos.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, os discípulos de Emaús contaram o que tinha acontecido no caminho e como tinham reconhecido Jesus ao partir do pão. Enquanto diziam isto, Jesus apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Espantados e cheios de medo, julgavam ver um espírito. Disse-lhes Jesus: «Porque estais perturbados e porque se levantam esses pensamentos nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E como eles, na sua alegria e admiração, não queriam ainda acreditar, perguntou-lhes: «Tendes aí alguma coisa para comer?» Deram-Lhe uma posta de peixe assado, que Ele tomou e começou a comer diante deles. Depois disse-lhes: «Foram estas as palavras que vos dirigi, quando ainda estava convosco: ‘Tem de se cumprir tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos’». Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas de todas estas coisas».

Palavra da salvação.

COMENTÁRIO

No Evangelho de hoje vemos que os apóstolos estavam reunidos, com as portas fechadas, por medo dos judeus. De repente, sem que ninguém pudesse imaginar de onde teria vindo, Jesus aparece no meio deles.

Os discípulos levam um grande susto com a aparição de Jesus. Não esperavam encontrar o Mestre. Afinal, para eles, Jesus estava morto. Ainda não tinham entendido que Jesus ressuscitaria. Seria um fantasma que estavam vendo?
Jesus acalma a todos e lhes dá a certeza de que é ele mesmo que ali está, em carne e osso. Com essa atitude Jesus confirma que realmente ressuscitou. Depois de mostrar suas mãos e seus pés, Jesus pediu algo para comer.

O Evangelho de hoje é riquíssimo em sua mensagem. Vamos juntos ressaltar alguns momentos para a nossa reflexão: Primeiro, vamos analisar o comportamento dos discípulos que se dirigiam para Emaús. Estavam arrasados, cabisbaixos e sem rumo. Evidentemente tinham bons motivos para se sentirem assim. Voltavam para as suas terras, derrotados. Suas vidas já não tinham mais sentido. Não havia mais motivo para lutar.

O Mestre, em quem tanto acreditavam, o Messias que viria para aniquilar o inimigo, estava morto. Parecia que ninguém estava se importando com eles. Todos os sonhos e castelos se desmoronaram. Caminhavam conversando sobre isso, quando Jesus lhes aparece e anda com eles os quilômetros restantes. Caminharam vários quilômetros, lado a lado com Jesus, e não o reconheceram.

Quantas vezes nos comportamos da mesma maneira. Parece que nada mais tem jeito e que tudo se acabou. Andamos quilômetros e quilômetros, dias e dias cabisbaixos, sem rumo e totalmente descrentes, sem perceber que Jesus caminha conosco. O Mestre está ao nosso lado pronto para carregar-nos no colo, e não pedimos ajuda, pois não o reconhecemos.
No entanto, ao repartir o pão, os discípulos reconheceram Jesus. Através da Partilha Jesus se manifesta e mostra sua presença. Só podemos reconhecer Jesus e sentir sua presença na partilha, na distribuição do pão e dos dons.

Para se fazer conhecer, Jesus pede algo para comer. Se alguém duvida, ai está a grande prova de sua presença. Jesus se manifesta no pedinte. Ao repartir com o faminto e maltrapilho, ao dividir com o marginalizado e excluído, fatalmente nos deparamos com Jesus.
Finalizando, Jesus se coloca no meio de seus discípulos e lhes deseja a paz. Essa saudação de Jesus não é mera formalidade. A Paz de Jesus é alegria da alma, é paz interior. Paz é vida em plenitude, é comunhão, respeito, liberdade e cidadania.

Essa é a Paz de Jesus. Custe o que custar, essa é a paz que devemos buscar. Entretanto, é preciso estar preparado, pois na luta pela paz vamos encontrar milhares de obstáculos. As grandes potências, a indústria da guerra, os interesses econômicos e políticos não respeitam a vida e matam em nome da paz.

Por tudo isso, não é fácil a tarefa de quem luta pela paz. Talvez encontre a própria morte. No entanto, testemunhar e buscar a paz é missão do cristão. Alegre-se portanto, com esta boa notícia: a morte não é o fim! É o começo da verdadeira vida! Por isso, não tenha receio em lutar por justiça, pois a Glória Eterna é o verdadeiro e único fim para quem caminha com Jesus.
(fonte: wwww.miliciadaimaculada.org.br)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Reconheceram-n’O ao partir o pão





EVANGELHO Lc 24, 13-35


«Reconheceram-n’O ao partir o pão»

A aparição aos discípulos de Emaús é das mais significativas: encontramos aqui de novo, mas agora com uma estrutura mais completa e mais bem recortada, a ligação entre a Palavra e o Rito, o sinal, onde os discípulos reconhecem o Senhor. Toda esta encantadora narração reproduz a estrutura da celebração da Eucaristia: Jesus no meio dos seus; a palavra das Escrituras; Moisés (a Lei) e os Profetas (a leitura de amanhã acrescentará: os Salmos); a explicação (homilia) que desvenda o sentido das mesmas Escrituras; por fim, a “Fracção do pão”, termo que, desde a origem, designa a celebração da Eucaristia.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas


Dois dos discípulos de Jesus iam a caminho duma povoação chamada Emaús, que ficava a duas léguas de Jerusalém. Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido. Enquanto falavam e discutiam, Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem. Ele perguntou-lhes: «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?» Pararam, com ar muito triste, e um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único habitante de Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias». E Ele perguntou: «Que foi?» Responderam-Lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado. Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel. Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu. É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram: foram de madrugada ao sepulcro, não encontraram o corpo de Jesus e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos a anunciar que Ele estava vivo. Alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas a Ele não O viram». Então Jesus disse-lhes: «Homens sem inteligência e lentos de espírito para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram! Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória?» Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. Ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de seguir para diante. Mas eles convenceram-n’O a ficar, dizendo: «Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite». Jesus entrou e ficou com eles. E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconhe¬¬ceram-n’O. Mas Ele desapareceu da sua presença. Disseram então um para o outro: «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, que diziam: «Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão». E eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão.

Palavra da salvação.

EMAÚS


Lucas 24


I


Sentiam-se explodir, vulcões inquietos:
– Já fomos enganados tantas vezes!
Julgávamos que desta era diferente.


Lá iam, de memória dolorida,
Seus olhos prisioneiros no presente.
– Não lestes o que outrora vos disseram


Moisés e os Profetas? Que um Messias
E servo sofreria pelo povo
Mas que ao terceiro dia triunfava?


– E quem és tu? Será que não ouviste
As últimas notícias? Enganou-nos!
Três dias já lá vão – e dele, nada!


– Bem, há umas mulheres que disseram
Que uns homens como anjos tinham dito…
Mas dele ninguém viu sinais de vida!

II


Jesus entrara assim nessa conversa
Como se não falassem da sua morte
Aqueles peregrinos sem esperança.


A dor tinha-lhes mesmo escurecido
As mentes, ao sol-pôr, e já não viam
Que o novo companheiro era o seu Mestre!


(Tu sabes que é difícil crer de novo
Depois da decepção de um desamor
Ou de uma crença imposta. Crês–se amas!)


A chama do calor que o sol perdera
Queimava no seu peito, renascida.
E a luz da fé mortiça reanimou-se


Ao Ele partir o pão: “É o Rabunni!”
Mas Ele já lá não estava: Era O Vivente!
E foram para a vida proclamá-lo.


Frei Lopes Morgado

terça-feira, 26 de abril de 2011

Vi o Senhor


EVANGELHO Jo 20, 11-18

Maria Madalena, no jardim de José de Arimateia, é a figura da Igreja, a nova Eva, no jardim do novo paraíso, o da nova criação. Aí ela encontra o seu Senhor, O reconhece e O adora. E para sempre, pela sua boca, continuará a ouvir-se a grande Boa Nova: “Vi o Senhor ressuscitado”. Assim o proclama aqui hoje a assembleia dos seus discípulos.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, Maria Madalena estava a chorar junto do sepulcro. Enquanto chorava, debruçou-se para dentro do sepulcro e viu dois Anjos vestidos de branco, sentados, um à cabeceira e outro aos pés, onde estivera deitado o corpo de Jesus. Os Anjos perguntaram a Maria: «Mulher, porque choras?» Ela respondeu- lhes: «Porque levaram o meu Senhor e não sei onde O puseram». Dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus de pé, sem saber que era Ele. Disse-lhe Jesus: «Mulher, porque choras? A quem procuras?» Pensando que era o jardineiro, ela respondeu-Lhe: «Senhor, se foste tu que O levaste, diz-me onde O puseste, para eu O ir buscar». Disse-lhe Jesus: «Maria!» Ela voltou-se e respondeu em hebraico: «Rabuni!», que quer dizer: «Mestre!» Jesus disse-lhe: «Não Me detenhas, porque ainda não subi para o Pai. Vai ter com os meus irmãos e diz-lhes que vou subir para o meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus». Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: «Vi o Senhor». E contou-lhes o que Ele lhe tinha dito.

Palavra da salvação.

Maria Madalena encontrou porque buscou com sinceridade. Mas não se acomoda: irradia a todos a sua experiência de amor com o Ressuscitado. É a mesma experiência que todos podemos fazer. Basta procurar numa atitude de fé profunda e amor persistente. E, na medida em que experimentamos a presença do Ressuscitado, seremos como Maria Madalena, anunciadores do grande sonho de fraternidade pelo qual Jesus doou sua vida.

A bondade do Senhor encheu a terra.


Salmo 32 (33), 4-5.18-19.20.22 (R. 5b)

A palavra do Senhor é recta,
da fidelidade nascem as suas obras.
Ele ama a justiça e a rectidão:
a terra está cheia da bondade do Senhor.

Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem,
para os que esperam na sua bondade,
para libertar da morte as suas almas
e os alimentar no tempo da fome.

A nossa alma espera o Senhor:
Ele é o nosso amparo e protector.
Venha sobre nós a vossa bondade,
porque em Vós esperamos, Senhor.

domingo, 24 de abril de 2011

Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor

Ela, penssando que era o encarregado do horto, disse-lhe: Senhor, se fostes tu que tiraste, diz-me onde o pusseste, que eu vou buscá-lo. Disse-lhe Jesus: Maria!
Ela, aproximando-se, exclamando-se em hebraico: rabbuni! Que quer dizer Mestre!



Jesus disse-lhe, não me detenhas, pois ainda não subi para o Pai, ...



Jesus disse-lhe: Mulher, porque choras? Quem procuras?



Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João: 20,1-9

No primeiro dia da semana,
Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro
e viu a pedra retirada do sepulcro.
Correu então e foi ter com Simão Pedro
e com o discípulo predilecto de Jesus
e disse-lhes:
«Levaram o Senhor do sepulcro,
e não sabemos onde O puseram».
Pedro partiu com o outro discípulo
e foram ambos ao sepulcro.
Corriam os dois juntos,
mas o outro discípulo antecipou-se,
correndo mais depressa do que Pedro,
e chegou primeiro ao sepulcro.
Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou.
Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira.
Entrou no sepulcro
e viu as ligaduras no chão
e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus,
não com as ligaduras, mas enrolado à parte.
Entrou também o outro discípulo
que chegara primeiro ao sepulcro:
viu e acreditou.
Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura,
segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.



Palavra da Salvação



O texto começa com uma indicação aparentemente cronológica, mas que deve ser entendida sobretudo em chave teológica: “no primeiro dia da semana”. Significa que começou um novo ciclo – o da nova criação, o da Páscoa definitiva. Aqui começa um novo tempo, o tempo do homem novo, que nasce a partir da doação de Jesus.


A primeira personagem em cena é Maria Madalena: ela é a primeira a dirigir-se ao túmulo de Jesus, ainda o sol não tinha nascido, na manhã do “primeiro dia da semana”. Ela representa a nova comunidade que nasceu da acção criadora e vivificadora do Messias; essa nova comunidade, testemunha da cruz, acredita – inicialmente – que a morte triunfou e vai procurar Jesus no sepulcro: é uma comunidade perdida, desorientada, insegura, desamparada, que ainda não conseguiu descobrir que a morte foi derrotada; mas, diante do sepulcro vazio, a nova comunidade apercebe-se de que a morte não venceu e que Jesus continua vivo.

Na sequência, João apresenta uma catequese sobre a dupla atitude dos discípulos diante do mistério da morte e da ressurreição de Jesus. Essa dupla atitude é expressa no comportamento de dois discípulos que, na manhã da Páscoa, correm ao túmulo de Jesus: Simão Pedro e um “outro discípulo” não identificado (mas que parece ser esse “discípulo amado”, apresentado no Quarto Evangelho como modelo ideal do discípulo).


João coloca, aliás, estas duas figuras lado a lado em várias circunstâncias (na última ceia, é o “discípulo amado” que percebe quem está do lado de Jesus e quem O vai trair – cf. Jo 13,23-25; na paixão, é ele que consegue estar perto de Jesus no átrio do sumo sacerdote, enquanto Pedro O trai – cf. Jo 18,15-18.25-27; é ele que está junto da cruz quando Jesus morre – cf. Jo 19,25-27); é ele quem reconhece Jesus ressuscitado nesse vulto que aparece aos discípulos no lago de Tiberíades – cf. Jo 21,7). Nas outras vezes, o “discípulo amado” levou sempre vantagem sobre Pedro. Aqui, isso irá acontecer outra vez: o “outro discípulo” correu mais e chegou ao túmulo primeiro que Pedro (o facto de se dizer que ele não entrou logo pode querer significar a sua deferência e o seu amor, que resultam da sua sintonia com Jesus); e, depois de ver, “acreditou” (o mesmo não se diz de Pedro).


Provavelmente, o autor do Quarto Evangelho quis descrever, através destas figuras, o impacto produzido nos discípulos pela morte de Jesus e as diferentes disposições existentes entre os membros da comunidade cristã. Em geral Pedro representa, nos Evangelhos, o discípulo obstinado, para quem a morte significa fracasso e que se recusa a aceitar que a vida nova passe pela humilhação da cruz (Jo 13,6-8.36-38; 18,16.17.18.25-27; cf. Mc 8,32-33; Mt 16,22-23). Ao contrário, o “outro discípulo” é o “discípulo amado”, que está sempre próximo de Jesus, que faz a experiência do amor de Jesus; por isso, corre ao seu encontro de forma mais decidida e “percebe” – porque só quem ama muito percebe certas coisas que passam despercebidas aos outros – que a morte não pôs fim à vida.


Esse “outro discípulo” é, portanto, a imagem do discípulo ideal, que está em sintonia total com Jesus, que corre ao seu encontro com um total empenho, que compreende os sinais e que descobre (porque o amor leva à descoberta) que Jesus está vivo. Ele é o paradigma do Homem Novo, do homem recriado por Jesus.

A reflexão pode partir dos seguintes dados:

• A lógica humana vai na linha da figura representada por Pedro: o amor partilhado até à morte, o serviço simples e sem pretensões, a entrega da vida, só conduzem ao fracasso e não são um caminho sólido e consistente para chegar ao êxito, ao triunfo, à glória; da cruz, do amor radical, da doação de si, não pode resultar realização, felicidade, vida plena. É verdade que é esta a perspectiva da cultura dominante; é verdade que é esta a perspectiva de muitos cristãos (representados na figura de Simão Pedro). Como me situo face a isto?

• A ressurreição de Jesus prova, precisamente, que a vida plena, a vida total, a transfiguração total da nossa realidade finita e das nossas capacidades limitadas passa pelo amor que se dá, com radicalidade, até às últimas consequências. Tenho consciência disso? É nessa direcção que conduzo a caminhada da minha vida?

• Pela fé, pela esperança, pelo seguimento de Cristo e pelos sacramentos, a semente da ressurreição (o próprio Jesus) é depositada na realidade do homem/corpo. Revestidos de Cristo, somos nova criatura: estamos, portanto, a ressuscitar, até atingirmos a plenitude, a maturação plena, a vida total (quando ultrapassarmos a barreira da morte física). Aqui começa, pois, a nova humanidade.

• A figura de Pedro pode também representar, aqui, essa velha prudência dos responsáveis institucionais da Igreja, que os impede de ir à frente da caminhada do Povo de Deus, de arriscar, de aceitar os desafios, de aderir ao novo, ao desconcertante, ao incompreensível. O Evangelho de hoje sugere que é, precisamente aí que, tantas vezes, se revela o mistério de Deus e se encontram ecos de ressurreição e de vida nova.